Era mais um dia como os outros: Normal. Meu despertador tocou as 6 da manhã, liguei minha cafeteira, tomei meu banho quente, escolhi minhas roupas, tomei café em minha caneca favorita. Olhei para o relógio, 7:33 era o que ele marcava. Demorei tudo isso para me arrumar? Estou atrasado 3 minutos, a minha caminhada até a escola seria mais alguns minutos, logo, estaria mais atrasado. Mas eu não me importava. Peguei minha mochila de todos os dias que não me via desde sexta-feira, que foi quando eu voltei da escola e resolvi esquecê-la no canto da sala. Olhei para a prateleira de livros. Suspirei. Que letra eu estava mesmo?
As aulas sempre eram todas iguais: Sozinhas e entediantes. Era o meu último ano e eu mal esperava o fim deste, que seria quando eu iria pegar meu diploma e nunca mais ver aquelas pessoas com que eu convivi por quinze anos da minha vida. Animais invertebrados, peixes, cloaca. “Não me interesso por nada disso”, pensei. Suspirei e peguei meu livro de dentro da mochila. Estava na letra O. No começo do ano, resolvi que iria ler um livro por dia. Mas tenho muito mais do que 365, então ia demorar mais que isso. São todos organizados alfabeticamente, por título, não por autor. Com o livro em minhas mãos, resolvi me desligar da biologia e entrar em meu mundo. “O Alienista” era isso que estava escrito na capa do livro. Machado de Assis? Era um dos meus autores favoritos. Irônico com a sociedade e com o homem, é disso que eu gosto: Da verdade sendo mostrada de algum jeito.
Não ouvi o sinal anunciar o final das aulas, então quando resolvi prestar atenção no que estava acontecendo, a professora estava recolhendo suas coisas. “Você não vai para a casa?”, me questionou. Balancei a cabeça em resposta, olhei em qual capítulo estava, fechei minha mochila e peguei meu caminho para casa.
Todos dias eram a mesma coisa. Acordar, escola, casa, dormir. Acordar, escola, casa, dormir. Acordar, escola, casa, dormir. Eu estava tão cansado dessa rotina! Eu quero a minha pausa para o meu café, para meus livros! “Estude, estude, estude”! É isso o que todos colocam na nossa cabeça o tempo todo, em todo lugar! Em casa, na TV, nas rádios. E mesmo que eu não more com os meus pais, eles dão um jeito de mandar em mim. Já tenho 18 anos! Estudar para quê, se apenas aprendemos as coisas que, teoricamente, fazem sentido?
Para mim, nada nesse mundo fez sentido. O amor e o ódio juntos, as guerras, a violência, as nossas rotinas. “Mas sem o aprendizado você não é nada”, eles dizem. Como não? Para eu ser algo, eu só preciso existir com meus pensamentos. Então eu pensava, e os dias passavam, as horas iam como se fossem segundos. E eu era tratado como um desperdício de tempo e espaço: Nunca me encaixei em nenhum lugar, sempre o diferente, sempre o errado.
Mas para mim como eu agia, como eu falava, meus pensamentos, tudo fazia sentido! Aprendia comigo mesmo, sozinho. Escrevia textos, músicas, que o mundo nunca veria, meu ponto de vista que jamais conheceriam. Meu quarto era o meu único refúgio, cheio de livros que nutriam minha indignação com a hipocrisia da sociedade. Meus livros organizados, meu plano de um livro por dia.
E assim foi, durante mais 260 dias. Tinha terminado o colégio e estava de mudança para longe. Colocando meus livros em caixas, eu peguei o último, o daquele dia. Ele não tinha capa, não tinha contra capa, ele não tinha simplesmente nada escrito. O abri vagarosamente, tentando buscar em minha cabeça o que era aquele livro, mas quando eu bati meus olhos nas palavras escritas, tudo me veio a mente. “Só para você nunca esquecer de quem você é e dos seus pensamentos. Sempre estarei com você. Sua irmã”. Me sentei. Fazia apenas 3 anos que ela havia ido embora. Era uma pessoa tão pequena, tão amável, tão, tão... Tão. E fazia tanta falta! A única pessoa que se importava comigo, a única pessoa que eu me importava.
Parei o que eu estava fazendo para ler os contos que continham naquele livro que ela havia feito para mim. Só havia Machado! Claro, como eu poderia me esquecer? Terminei de ler o último conto, e me lembrei porque eu gostava tanto dele.
“- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora
franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.”
Esse era o final do conto. Deite-me em minha cama. Essa era minha última noite ali, minha última noite nessa cidade. Mas será que o problema que eu estava enfrentando a tanto tempo achando que era a sociedade, na verdade, era eu? Eu que nunca estava feliz com nada? NÃO! O problema era a sociedade, ela tinha que mudar. As pessoas tinham que gostar do mundo, da natureza, uns dos outros! E parar com pensamentos e ações sem sentido! E em meio a tantos pensamentos, eu adormeci.
Não era mais um dia como todos os outros. Meu despertador tocou as 6 da manhã, liguei minha cafeteira, tomei meu banho quente, escolhi minhas roupas. Me arrumei e olhei para minha caneca favorita “Penso, logo, existo”, era a frase que ela continha. Vi as caixas espalhadas pelo meu quarto, meus pertences guardados. Eu tinha que mudar, para mudar o mundo, mesmo que seja apenas o meu. Peguei um papel e com uma caneta, deixei um bilhete para quem quiser ver. Olhei para o relógio, 7:33 era o que ele marcava. Mas diferente dos outros dias, eu não peguei minha mochila e segui meu caminho para a escola, fui apenas em direção a varanda, e não parei quando ela acabou.
E a única coisa que sobrou foi um quarto com livros e algumas palavras:
“Com esses pensamentos, eu mudei. E o mundo também mudará. Pena que eu não estarei aqui para presenciar isso”
Assinar:
Postar comentários (Atom)

"Nada pode o olvido
ResponderExcluircontra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão."
(Carlos Drummond de Andrade)
Gostei de ler seu blog