Quando ele se foi, parecia que tudo tinha acabado, meu mundo havia desabado. Não sabia o que fazer, os dias se passavam e eu não fazia ideia em qual deles eu estava, as horas passavam como se fossem segundos e tudo parecia tão quieto, calmo.
Eu encarava o por-do-sol, como eu costumava fazer todos os Domingos. Sentia o vento em meu rosto e o aperto em meu coração. Minha mão quente perdendo seu calor e dando espaço ao frio. Isso sempre acontecia quando eu parava para lembrar a falta que ele me fazia. Suspirei e aquele sentimento de desistir de tudo tomou meu corpo todo. Olhei para a rua abaixo de meus pés, ela parecia tão convidativa. Por que eu ainda estava ali, mesmo?
- Mamãe!
Sorri. Me virei e o vi em minha cama.
- Vem, mamãe! Você prometeu ver TV comigo hoje!
E eu esqueci de tudo o que eu havia pensado segundos atrás. Olhei para a rua e ela apenas parecia movimentada, as pessoas na rua andavam depressa, como se corressem contra o tempo. Olhei para ele trocando os canais da TV e meu coração se encheu de amor, senti o calor voltando para a minha mão. O céu não estava mais laranja, e o Sol deu espaço para a lua fazer seu trabalho de todas as noites: Lembrar da minha felicidade naquele sorrisinho deitado em minha cama.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Seu tênis preto All-Star
E caminhando para um lugar onde eu podia me sentir segura, eu o vejo. Perco o chão. Fugi tanto para encontra-lo aqui? Hesitei, mas não deixei de continuar. Ele se virou e me deu aquele sorriso, aquele que eu estava tão acostumada de sonhar por tanto tempo. Ele disse "eu sabia que você voltaria", olhei para o meu All-Star sujo, e ali vi nossas iniciais, continuei a encarar meus pés, e senti o toque dele em meu queixo. "Você sabe que você sempre voltará, não é? Igual como eu sempre vou estar aqui te esperando". E aquele sentimento que pensei que nunca mais sentiria, voltou quando ele encostou seus lábios aos meus. "Sempre" murmurei.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Quarto dos livros
Era mais um dia como os outros: Normal. Meu despertador tocou as 6 da manhã, liguei minha cafeteira, tomei meu banho quente, escolhi minhas roupas, tomei café em minha caneca favorita. Olhei para o relógio, 7:33 era o que ele marcava. Demorei tudo isso para me arrumar? Estou atrasado 3 minutos, a minha caminhada até a escola seria mais alguns minutos, logo, estaria mais atrasado. Mas eu não me importava. Peguei minha mochila de todos os dias que não me via desde sexta-feira, que foi quando eu voltei da escola e resolvi esquecê-la no canto da sala. Olhei para a prateleira de livros. Suspirei. Que letra eu estava mesmo?
As aulas sempre eram todas iguais: Sozinhas e entediantes. Era o meu último ano e eu mal esperava o fim deste, que seria quando eu iria pegar meu diploma e nunca mais ver aquelas pessoas com que eu convivi por quinze anos da minha vida. Animais invertebrados, peixes, cloaca. “Não me interesso por nada disso”, pensei. Suspirei e peguei meu livro de dentro da mochila. Estava na letra O. No começo do ano, resolvi que iria ler um livro por dia. Mas tenho muito mais do que 365, então ia demorar mais que isso. São todos organizados alfabeticamente, por título, não por autor. Com o livro em minhas mãos, resolvi me desligar da biologia e entrar em meu mundo. “O Alienista” era isso que estava escrito na capa do livro. Machado de Assis? Era um dos meus autores favoritos. Irônico com a sociedade e com o homem, é disso que eu gosto: Da verdade sendo mostrada de algum jeito.
Não ouvi o sinal anunciar o final das aulas, então quando resolvi prestar atenção no que estava acontecendo, a professora estava recolhendo suas coisas. “Você não vai para a casa?”, me questionou. Balancei a cabeça em resposta, olhei em qual capítulo estava, fechei minha mochila e peguei meu caminho para casa.
Todos dias eram a mesma coisa. Acordar, escola, casa, dormir. Acordar, escola, casa, dormir. Acordar, escola, casa, dormir. Eu estava tão cansado dessa rotina! Eu quero a minha pausa para o meu café, para meus livros! “Estude, estude, estude”! É isso o que todos colocam na nossa cabeça o tempo todo, em todo lugar! Em casa, na TV, nas rádios. E mesmo que eu não more com os meus pais, eles dão um jeito de mandar em mim. Já tenho 18 anos! Estudar para quê, se apenas aprendemos as coisas que, teoricamente, fazem sentido?
Para mim, nada nesse mundo fez sentido. O amor e o ódio juntos, as guerras, a violência, as nossas rotinas. “Mas sem o aprendizado você não é nada”, eles dizem. Como não? Para eu ser algo, eu só preciso existir com meus pensamentos. Então eu pensava, e os dias passavam, as horas iam como se fossem segundos. E eu era tratado como um desperdício de tempo e espaço: Nunca me encaixei em nenhum lugar, sempre o diferente, sempre o errado.
Mas para mim como eu agia, como eu falava, meus pensamentos, tudo fazia sentido! Aprendia comigo mesmo, sozinho. Escrevia textos, músicas, que o mundo nunca veria, meu ponto de vista que jamais conheceriam. Meu quarto era o meu único refúgio, cheio de livros que nutriam minha indignação com a hipocrisia da sociedade. Meus livros organizados, meu plano de um livro por dia.
E assim foi, durante mais 260 dias. Tinha terminado o colégio e estava de mudança para longe. Colocando meus livros em caixas, eu peguei o último, o daquele dia. Ele não tinha capa, não tinha contra capa, ele não tinha simplesmente nada escrito. O abri vagarosamente, tentando buscar em minha cabeça o que era aquele livro, mas quando eu bati meus olhos nas palavras escritas, tudo me veio a mente. “Só para você nunca esquecer de quem você é e dos seus pensamentos. Sempre estarei com você. Sua irmã”. Me sentei. Fazia apenas 3 anos que ela havia ido embora. Era uma pessoa tão pequena, tão amável, tão, tão... Tão. E fazia tanta falta! A única pessoa que se importava comigo, a única pessoa que eu me importava.
Parei o que eu estava fazendo para ler os contos que continham naquele livro que ela havia feito para mim. Só havia Machado! Claro, como eu poderia me esquecer? Terminei de ler o último conto, e me lembrei porque eu gostava tanto dele.
“- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora
franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.”
Esse era o final do conto. Deite-me em minha cama. Essa era minha última noite ali, minha última noite nessa cidade. Mas será que o problema que eu estava enfrentando a tanto tempo achando que era a sociedade, na verdade, era eu? Eu que nunca estava feliz com nada? NÃO! O problema era a sociedade, ela tinha que mudar. As pessoas tinham que gostar do mundo, da natureza, uns dos outros! E parar com pensamentos e ações sem sentido! E em meio a tantos pensamentos, eu adormeci.
Não era mais um dia como todos os outros. Meu despertador tocou as 6 da manhã, liguei minha cafeteira, tomei meu banho quente, escolhi minhas roupas. Me arrumei e olhei para minha caneca favorita “Penso, logo, existo”, era a frase que ela continha. Vi as caixas espalhadas pelo meu quarto, meus pertences guardados. Eu tinha que mudar, para mudar o mundo, mesmo que seja apenas o meu. Peguei um papel e com uma caneta, deixei um bilhete para quem quiser ver. Olhei para o relógio, 7:33 era o que ele marcava. Mas diferente dos outros dias, eu não peguei minha mochila e segui meu caminho para a escola, fui apenas em direção a varanda, e não parei quando ela acabou.
E a única coisa que sobrou foi um quarto com livros e algumas palavras:
“Com esses pensamentos, eu mudei. E o mundo também mudará. Pena que eu não estarei aqui para presenciar isso”
As aulas sempre eram todas iguais: Sozinhas e entediantes. Era o meu último ano e eu mal esperava o fim deste, que seria quando eu iria pegar meu diploma e nunca mais ver aquelas pessoas com que eu convivi por quinze anos da minha vida. Animais invertebrados, peixes, cloaca. “Não me interesso por nada disso”, pensei. Suspirei e peguei meu livro de dentro da mochila. Estava na letra O. No começo do ano, resolvi que iria ler um livro por dia. Mas tenho muito mais do que 365, então ia demorar mais que isso. São todos organizados alfabeticamente, por título, não por autor. Com o livro em minhas mãos, resolvi me desligar da biologia e entrar em meu mundo. “O Alienista” era isso que estava escrito na capa do livro. Machado de Assis? Era um dos meus autores favoritos. Irônico com a sociedade e com o homem, é disso que eu gosto: Da verdade sendo mostrada de algum jeito.
Não ouvi o sinal anunciar o final das aulas, então quando resolvi prestar atenção no que estava acontecendo, a professora estava recolhendo suas coisas. “Você não vai para a casa?”, me questionou. Balancei a cabeça em resposta, olhei em qual capítulo estava, fechei minha mochila e peguei meu caminho para casa.
Todos dias eram a mesma coisa. Acordar, escola, casa, dormir. Acordar, escola, casa, dormir. Acordar, escola, casa, dormir. Eu estava tão cansado dessa rotina! Eu quero a minha pausa para o meu café, para meus livros! “Estude, estude, estude”! É isso o que todos colocam na nossa cabeça o tempo todo, em todo lugar! Em casa, na TV, nas rádios. E mesmo que eu não more com os meus pais, eles dão um jeito de mandar em mim. Já tenho 18 anos! Estudar para quê, se apenas aprendemos as coisas que, teoricamente, fazem sentido?
Para mim, nada nesse mundo fez sentido. O amor e o ódio juntos, as guerras, a violência, as nossas rotinas. “Mas sem o aprendizado você não é nada”, eles dizem. Como não? Para eu ser algo, eu só preciso existir com meus pensamentos. Então eu pensava, e os dias passavam, as horas iam como se fossem segundos. E eu era tratado como um desperdício de tempo e espaço: Nunca me encaixei em nenhum lugar, sempre o diferente, sempre o errado.
Mas para mim como eu agia, como eu falava, meus pensamentos, tudo fazia sentido! Aprendia comigo mesmo, sozinho. Escrevia textos, músicas, que o mundo nunca veria, meu ponto de vista que jamais conheceriam. Meu quarto era o meu único refúgio, cheio de livros que nutriam minha indignação com a hipocrisia da sociedade. Meus livros organizados, meu plano de um livro por dia.
E assim foi, durante mais 260 dias. Tinha terminado o colégio e estava de mudança para longe. Colocando meus livros em caixas, eu peguei o último, o daquele dia. Ele não tinha capa, não tinha contra capa, ele não tinha simplesmente nada escrito. O abri vagarosamente, tentando buscar em minha cabeça o que era aquele livro, mas quando eu bati meus olhos nas palavras escritas, tudo me veio a mente. “Só para você nunca esquecer de quem você é e dos seus pensamentos. Sempre estarei com você. Sua irmã”. Me sentei. Fazia apenas 3 anos que ela havia ido embora. Era uma pessoa tão pequena, tão amável, tão, tão... Tão. E fazia tanta falta! A única pessoa que se importava comigo, a única pessoa que eu me importava.
Parei o que eu estava fazendo para ler os contos que continham naquele livro que ela havia feito para mim. Só havia Machado! Claro, como eu poderia me esquecer? Terminei de ler o último conto, e me lembrei porque eu gostava tanto dele.
“- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora
franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.”
Esse era o final do conto. Deite-me em minha cama. Essa era minha última noite ali, minha última noite nessa cidade. Mas será que o problema que eu estava enfrentando a tanto tempo achando que era a sociedade, na verdade, era eu? Eu que nunca estava feliz com nada? NÃO! O problema era a sociedade, ela tinha que mudar. As pessoas tinham que gostar do mundo, da natureza, uns dos outros! E parar com pensamentos e ações sem sentido! E em meio a tantos pensamentos, eu adormeci.
Não era mais um dia como todos os outros. Meu despertador tocou as 6 da manhã, liguei minha cafeteira, tomei meu banho quente, escolhi minhas roupas. Me arrumei e olhei para minha caneca favorita “Penso, logo, existo”, era a frase que ela continha. Vi as caixas espalhadas pelo meu quarto, meus pertences guardados. Eu tinha que mudar, para mudar o mundo, mesmo que seja apenas o meu. Peguei um papel e com uma caneta, deixei um bilhete para quem quiser ver. Olhei para o relógio, 7:33 era o que ele marcava. Mas diferente dos outros dias, eu não peguei minha mochila e segui meu caminho para a escola, fui apenas em direção a varanda, e não parei quando ela acabou.
E a única coisa que sobrou foi um quarto com livros e algumas palavras:
“Com esses pensamentos, eu mudei. E o mundo também mudará. Pena que eu não estarei aqui para presenciar isso”
terça-feira, 13 de abril de 2010
Age of innocence
Clic. Clic. Clic.
Passava os canais em busca de algo decente para assistir e passar a longa noite que viria pela frente. Era uma sexta à noite e eu estava sozinha em casa. Já era quase de madrugada e a chuva caia fortemente lá fora. Em meio aos meus pensamentos e as mudanças de canais, percebo que há apenas filmes com cenas de sexo para conquistar o publico e atrair a sua atenção, e seriados insinuantes que giram em torno disto. A atualidade usa apenas isso para ganhar espectadores. Nenhum programa educativo, nenhuma ação sem ganância, sem luxúria. Não é apenas isso que as pessoas querem ver.
Deixo em um canal qualquer quando sinto meu celular vibrando ao meu lado, e pelo o visor vejo qual é a mensagem. “Olhe para fora.” dizia ela.
Por um momento hesitei em não olhar. Não queria vê-lo. Mas quando eu olhei, lá estava ele, parado na chuva olhando para mim pela janela. Hesitei de novo. Peguei lentamente o controle pensando no que eu faria e antes de desligar a TV, olhei para o que estava passando: uma cena de sexo. Uau! Porque não estou surpresa?
Fui até a porta, tropeçando em meus próprios pés. Suspirei, e abri. E lá estava ele, parado na minha frente. Com sua camisa listrada que eu tanto amava, seu cabelo escuro colado a sua testa por causa da chuva, seus olhos castanhos brilhando para mim. Senti aquele cheiro e fiquei entorpecida, senti seu toque e minhas pernas bambearam. Não resisti e fechei meus olhos. Seu nariz gelado e molhando encostou no meu. Me arrepiei, e ele percebeu, e soltou um sorriso de lado, aquele que eu tanto amava, e me beijou. Mas não foi um beijo romântico e calmo, foi um beijo com urgência, com saudades, com desejo. Entramos tropeçando em casa e ele me prensou rapidamente na parede. Nosso ritmo estava descompassado e eu sentia calor. Ele também, tirou a minha blusa e para não sair perdendo, tirei a dele também. Passei minhas unhas fortemente por suas costas e ele apertou mais minha cintura. Não conseguia mais respirar, mas e queria mais. E enquanto ele beijava meu pescoço, meus pensamentos estavam confusos e eu não conseguia me concentrar. E aquela sala estava ficando mais quente a cada segundo que passada e a necessidade só aumentava... Subimos com muito esforço as escadas até meu quarto. Eu já sabia aonde isso ia dar, e não era inocência. Sou uma hipócrita, porque realmente é isso que todos querem ver na TV... Ou não apenas ver.
Passava os canais em busca de algo decente para assistir e passar a longa noite que viria pela frente. Era uma sexta à noite e eu estava sozinha em casa. Já era quase de madrugada e a chuva caia fortemente lá fora. Em meio aos meus pensamentos e as mudanças de canais, percebo que há apenas filmes com cenas de sexo para conquistar o publico e atrair a sua atenção, e seriados insinuantes que giram em torno disto. A atualidade usa apenas isso para ganhar espectadores. Nenhum programa educativo, nenhuma ação sem ganância, sem luxúria. Não é apenas isso que as pessoas querem ver.
Deixo em um canal qualquer quando sinto meu celular vibrando ao meu lado, e pelo o visor vejo qual é a mensagem. “Olhe para fora.” dizia ela.
Por um momento hesitei em não olhar. Não queria vê-lo. Mas quando eu olhei, lá estava ele, parado na chuva olhando para mim pela janela. Hesitei de novo. Peguei lentamente o controle pensando no que eu faria e antes de desligar a TV, olhei para o que estava passando: uma cena de sexo. Uau! Porque não estou surpresa?
Fui até a porta, tropeçando em meus próprios pés. Suspirei, e abri. E lá estava ele, parado na minha frente. Com sua camisa listrada que eu tanto amava, seu cabelo escuro colado a sua testa por causa da chuva, seus olhos castanhos brilhando para mim. Senti aquele cheiro e fiquei entorpecida, senti seu toque e minhas pernas bambearam. Não resisti e fechei meus olhos. Seu nariz gelado e molhando encostou no meu. Me arrepiei, e ele percebeu, e soltou um sorriso de lado, aquele que eu tanto amava, e me beijou. Mas não foi um beijo romântico e calmo, foi um beijo com urgência, com saudades, com desejo. Entramos tropeçando em casa e ele me prensou rapidamente na parede. Nosso ritmo estava descompassado e eu sentia calor. Ele também, tirou a minha blusa e para não sair perdendo, tirei a dele também. Passei minhas unhas fortemente por suas costas e ele apertou mais minha cintura. Não conseguia mais respirar, mas e queria mais. E enquanto ele beijava meu pescoço, meus pensamentos estavam confusos e eu não conseguia me concentrar. E aquela sala estava ficando mais quente a cada segundo que passada e a necessidade só aumentava... Subimos com muito esforço as escadas até meu quarto. Eu já sabia aonde isso ia dar, e não era inocência. Sou uma hipócrita, porque realmente é isso que todos querem ver na TV... Ou não apenas ver.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Strawberry fields forever.

Assustei-me quando senti um papel em meu colo. Olhei para os lados, ninguém estava olhando. Olhei para frente, o professor estava muito concentrado em tentar nos explicar qual a importância da geometria analítica. Abri o papel amassado devagar. “Strawberry fields forever” era o que estava escrito nele, com uma letra que eu conhecia muito bem. Sorri. Olhei para Thomas, e lá estava ele, com um sorriso discreto no rosto, me olhando de canto. Vou dizer, no começo eu não entendi muito bem o que ele queria dizer, mas depois fez sentido.
Ouvi o tão esperado sinal que anunciava o fim das aulas daquele dia. Fui procurar Thomas, mas não o achei. Mas sabia exatamente onde ele estava. Peguei minha bicicleta, e fui andando lentamente pela as ruas vazias e repletas de folhas amareladas do outono no chão. Sempre gostei dessa sensação de sentir o vento no meu rosto, me faz esquecer um pouco de tudo. Logo, cheguei à entrada, deixei minha bicicleta ali mesmo, e parei no pico do morro a procura dele. Olhei para baixo, e o vi deitado em meio de tanto verde. Parecia tão calmo, tão sereno, tão, tão... Thomas. Eu queria correr e abraçá-lo, mas eu não podia. Porque tudo tinha que ser tão complicado?
Fui andando calmamente até ele, e parecia que eram quilômetros e mais quilômetros... Parecia que eu nunca ia chegar. Ele não tinha percebido a minha presença, só quando me sentei ao seu lado, ele me olhou e sorriu. Ah, aquele sorriso.
- Ei. – ele disse quase sussurrando para mim.
- Ei. – respondi quase no mesmo tom que ele.
Ficamos nos olhando. Não sei quanto tempo passou, minutos, segundos, não sei. Não me cansava de olhar seus olhos castanhos e seus cabelos loiros. Ele pegou a minha mão, e me tirou do meu transe.
- Precisamos conversar. – ele suspirou e se deitou na grama, me puxando junto a ele. – Eu não sei mais o que eu faço, só consigo pensar em você.
- Tom, isso é errado. Muito errado. E, eu vim aqui pra falar que eu vou me mudar. – ele se sentou rapidamente.
- O que? Por quê? Você não pode fazer isso comigo, Lisa. – só ele me chama de Lisa. Nunca gostei do meu nome, nunca quis que ninguém me chamasse de outro nome além de Lizzie. Mas ai ele apareceu, e com ele veio esse apelido. Que no timbre da voz dele soa tão bem. Eu olhei para o céu, para não ter que encará-lo.
- Vai ser melhor pra você e pra mim, acredite.
- Como? Como vai ser melhor pra mim ficar longe de você? Você não pode. Por favor. – ele pegou minhas mãos e me puxou para um abraço. Senti lagrimas descendo por meu rosto. Droga.
- Não deixe mais difícil do que já é, Thomas. Você acha que não está sendo ruim pra mim o suficiente?
- Então não vá!
- Não posso ficar.
- Porque não? – vi lagrimas descendo pelo o rosto dele também. Limpei discretamente as minhas.
- Porque ela está grávida. DE VOCÊ. – ele pareceu entender o porquê de tudo. Ele voltou a deitar ao meu lado. Estávamos em silêncio. E parecia que o lugar também estava nos acompanhando: Não dava para ouvir nenhum passarinho, nem uma cigarra, ou as folhas balançando nas árvores.
Decidi levantar e ir embora. Mas antes que eu pudesse fazer isso, ele pegou no meu braço e me puxou para um beijo. No primeiro momento, pensei em impedi-lo, mas logo depois não resisti. E o nosso beijo foi se aprofundando mais e mais. E quando eu fui ver, já estava quase escurecendo. Separei-nos e olhei para o céu, ah, o pôr-do-sol. É a hora mais linda do dia, quando o céu fica avermelhado e laranja, quando o sol parece apenas uma bola de fogo. Olhei para o relógio, 6:00.
- Thomas, tenho que ir embora. Eu vou partir amanha. Já está tudo decidido. – me levantei, subindo vagarosamente o morro. Ali costumava ser um campo de morangos, mas ninguém planta morangos lá há muito tempo. Agora era apenas um campo. Ele não veio atrás de mim, ele apenas ficou sentado com a mão onde eu estava sentada, encarando o pôr-do-sol. Senti mais lagrimas descendo por meu rosto, e tratei logo de limpá-las. Cheguei onde estava a minha bicicleta e hesitei em subir nela. E se eu ficasse? Nós daríamos um jeito, igual sempre demos para tudo. E se...? NÃO, Lizzie. Se concentre, não podemos, não e não. Subi em minha bicicleta, e diferente de como vim, eu andei rapidamente para chegar em casa.
XX
Acordei assustado ouvindo vozes na frente do meu quarto. Malditas amigas da minha irmã que ficam falando alto. Olhei no relógio, quase meio dia. Não lembrava o porquê de ter dormido até tarde. Ah, é. Porque eu voltei tarde daquele maldito campo de morangos. E uma pergunta que não saia da minha cabeça desde lá era o porquê dela fazer isso comigo? E daí se Anne esta grávida? Nós não estamos mais juntos. Nem estávamos quando ela ficou grávida. Levantei-me e troquei de roupa, coloquei a camiseta preferida dela. Eu estava decidido, eu ia impedi-la. Não importa o que acontecer. Passei pela cozinha e tinha um cheiro bom vindo de lá. E se eu parasse pra comer antes? Hm, NÃO! Tenho que ir logo. Corri os poucos quarteirões que tínhamos de diferença entre nossas casas e parei quando cheguei em frente de sua casa. Hesitei. Toquei a campainha, mas para a minha decepção, a Sra. Wright que atendeu.
- Bom dia Thomas! – ela disse. – Você sumiu menino, nunca mais veio tomar café da tarde aqui em casa, você costumava vir todos os dias, praticamente morava aqui! – Ela riu e me abraçou. Sempre gostei da mãe da Lisa, sempre simpática.
- Bom dia Sra. Wright! – dei meu melhor sorriso a ela. – Faz tempo mesmo, não? É que não tem dado muito tempo, ando muito ocupado com a banda e tudo mais. – cocei minha nuca, eu estava mentindo. Lisa não me chamava para vir a casa dela como antigamente.
- E já disse para me chamar de Jo, Sra. Wright me faz sentir meio velha demais. Ah, então está perdoado! Você lembra que quando você ficar famoso você não vai esquecer-se da gente não é? De mim e da Lisa. – ela riu pelo nariz.
- Oh, claro Jo, não esquecerei. – fiquei meio sem jeito. – A Lisa está ai?
Ela colocou as mãos em meus ombros, e me chamou para entrar. Frio na barriga. Ela se sentou no sofá e eu sentei em frente a ela.
- Me desculpe Tom, mas ela já se foi. Ela pediu para eu não te contar, mas ela está na Califórnia. E ela pediu para eu entregar isso a você. – Ela me entregou um envelope rosa. Tão Lisa. – Eu sinto muito.
- Você não tem culpa, Jo. O culpado de tudo sou eu. Obrigado por me entregar. Importa-se se eu a ler aqui?
- Claro que não meu querido. Vou te dar mais privacidade. – Ela foi em direção a cozinha e eu me sentei no sofá encarando o envelope rosa. Peguei fôlego e o abri. Tinha uma carta e uma foto. Pus a carta ao meu lado e olhei a foto. Era eu e a Lisa no campo de morangos, com o pôr-do-sol ao fundo e uma fogueira ao lado. Nosso primeiro beijo. Lembro-me como se fosse hoje, meus olhos já estavam lacrimejados, mas não hesitei em pegar a carta e a abri-la vagarosamente.
“Querido Thomas,
Você sabe como nunca fui boa com despedidas. Acho que eu nunca saberei dizer adeus. Mas eu não poderia apenas ir embora, afinal é você. Você pode ter certeza que ninguém está mais triste do que eu estou agora por fazer isso. Mas eu não poderia ser a outra. Não poderia estar com você enquanto a Anne carrega um filho seu. Mas apesar de tudo, eu sempre serei sua. E na minha cabeça, você sempre será meu. E isso é que vai ficar. Obrigada por tudo. Por todos os momentos, por todas as conversas, os beijos, tudo. Nunca vou conseguir agradecer tudo o que você fez por mim. Com você, eu cresci, e aprendi que a vida não é fácil. Eu te amo, Eu te amo e eu te amo.
E desculpa.
Com amor, Lisa”
Senti meu chão se perdendo. Minha visão ficar embaçada. Senti Sra. Wright sentar do meu lado e me oferecer lenços de papeis. Levantei minha mão com um gesto negativo e me levantei.
- Você sempre foi um bom garoto Thomas. – ela suspirou. – Nunca vi Lizzie ser tão feliz como ela era quando você apareceu. Desde que o pai dela morreu, ela não se permitia ser feliz, a amar alguém. E ai você apareceu. – ela sorriu e limpou uma lagrima que escorria em seu rosto. – Não deixe tudo isso acabar, Thomas. Isso só depende de você.
Eu a abracei. E depois que ela fechou a porta, sentei na escada em frente à casa. Olhei nossa foto de novo, e ali tinha escrito algo que eu não tinha percebido antes.
“Strawberry fields forever”
E então eu sorri. Nós sempre teríamos nosso campo de morangos abandonado. Levantei-me e fui em direção a porta em que eu acabara de passar e toquei a campainha.
XX
Acordei com o meu celular tocando naquela manhã ensolarada e com dor de cabeça. Igual a todas que eu acordei nos 3 dias que eu passei na maldita Califórnia. Acho que era todo esse sol e essas palmeiras, e essas pessoas felizes. Tudo isso me irrita e me fazia sentir saudades de Londres. Suspirei. Olhei o visor do meu celular. “Numero desconhecido”. Ia voltar a dormir, quando ouvi a campainha tocar. Não me levantei para atender. O David, meu primo, atenderia. Tocou de novo. Será que ele tinha saído e me largado ali? Levantei rapidamente e coloquei uma roupa qualquer. Desci vagarosamente a escada e abri a porta procurando por alguém. Não tinha ninguém. Tinha apenas uma caixinha vermelha com um laço preto. Olhei para os lados procurando alguém, ma não havia ninguém. Abri a caixinha ali mesmo, e dentro dela, havia um morango, na verdade, um único morango, com uma foto e uma carta. Peguei a foto. Era exatamente a foto que eu mandei para o Thomas. Mil perguntas invadiram a minha mente. E novamente, olhei para os lados procurando algum sinal dele, ou de alguém. Nada. Peguei a carta e abri. E antes de começar a ler. Senti alguém tampando o sol que estava batendo diretamente em mim e me esquentando.
- Ei. – ele disse envergonhado. Me assustei. – Eu só queria que você soubesse.
- Soubesse o que? – ele sorriu e pegou seu violão. Ele apontou para o papel que estava na minha mão, e começou a cantar.
“Everyday feels like a Monday
There is no escaping from the heart ache
Now I gotta put it back together
'Cause it's always better later than never
Wishing I could be in California
I wanna tell ya when I call ya
I could've fallen in love
I wish I'd fallen in Love”
Ele estava sentado na escada da frente da casa de David, e eu estava parade bem na porta. Minhas pernas começaram a não agüentar, e eu tive que sentar na sua frente. E fui obrigada a encarar tão de perto seus olhos castanhos.
“Waking up to people talking
And it's getting later every morning
Then I realise it's nearly midday
And I've wasted half my life don't throw it away
Saying every day should be a new day
To make you smile and find a new way
Of falling in love
I could've fallen in love”
Ele sorriu. E em resposta, sorri também.
“Out of our minds and out of time
Wishing I could be with you
To share the view
Oh I think we’ve fallen in love”
Ele terminou de tocar e olhou em meus olhos.
- O filho dela não é meu. – ele sorriu. – Califórnia, han? Por você não escolheu algum lugar mais, cheio de morangos?
Eu sorri. Ele nunca iria mudar. Nós nunca iríamos. Porque afinal, sempre teremos os campos de morangos, não é mesmo? E talvez um pouquinho mais.
créditos ao Tomaz que me ajudou, hihi
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